Assim como eu, meu pai teve dois casamentos. A diferença é que ele, em cada um, deixou um casal de filhos - e alguns abortos. Eu sairei da vida com duas filhas apenas em um casamento - e nenhum aborto. Com a Hermocinda Neith, sua primeira esposa, meu pai teve Eliane Maria e Carlos Alberto. Com mamãe, Vera Lúcia e eu, Jorge Eduardo. O velho adorava nomes duplos.
Estranhamente, a duplicidade não foi só nos nomes. Quando eu nasci, fui recebido numa família estranhamente dividida entre "dois times". O clássico Os filhos do primeiro casamento X Os filhos do segundo casamento, um Fla-Flu que divide muitas famílias. Irmãos... Mas mais ou menos. Não me lembro de ter morado com o Carlos ou a Eliane, embora ela tenha morado lá em casa quando eu era pequeno. Saiu quando eu tinha três anos para casar com o Ney - meu cunhado até hoje, embora eles tenham se separado. Carlão morou com meu avô e com tia Hilda, sempre tida como a que fomentava a rivalidade entre irmãos. O que nem sei se é verdade, hoje em dia...
O curioso é que, quando fomos crescendo, ficou claro que nós não éramos rivais de porra nenhuma. Podíamos ter posições políticas distintas, morar em cidades diferentes, ser de gerações diferentes, mas nos gostávamos, não importando quem era nossa mãe. Claro, eu e Vera tínhamos a impressão que a mãe de Carlos e Eliane era um monstro, já que se separou do meu pai quando eles tinham oito meses e dois anos e pouco - e a guarda ficou com o meu pai. Impressão fomentada pelos discursos de família, sempre prontos a desconstruir quem não estava presente ou quem era desconhecido - não tenho certeza, mas acho que minha mãe não conheceu pessoalmente dona Hermocinda Neith até o dia 6 de janeiro deste ano.
Mas isso não nos incomodava. Não havia, na nossa cabeça, a figura do "meio irmão". Com Carlão, eu ia ao Maracanã, bebia cerveja e jogava tênis no Aterro do Flamengo, acompanhado dos meus sobrinhos Léo (filho dele) e Renato (filho da Eliane, que era mais que um sobrinho, era uma espécie de irmão mais novo que eu tinha, mas que as fofocas familiares nos afastaram de forma dramática). Na casa da Eliane eu dormia quando tinha namorada na Ilha, ia dar uns rolés com o Renato e ocasionalmente até pegava a Raquel para levar na praia...
Família. irmãos. Filhos do mesmo pai.
As mães eram diferentes, e todas sofreram na mão do velho. O cara não era fácil. Mulherengo. Tinha ímpetos de bater nelas também. Coisas de homens antigos. Lamentável, mas era um cara de outro tempo, criado por um sujeito que nasceu em 1890. Não dá para comparar conosco.
Cheguei a conhecer a mãe do Carlos e da Eliane em um escritório que meu irmão mantinha na Senador Dantas. Foi um encontro gentil e ela me pareceu uma pessoa encantadora, apesar de todo o preconceito e doutrinação contra que tinham incutido em mim. Até evitei dizer à minha mãe que havia conhecido a dona Neith, fato que só revelei às minhas irmãs, por motivos óbvios - àquela altura da vida, já havíamos sacado que a campanha contra ela se tratava de rancores pretéritos e de outras pessoas...
Eu, Carlão, Vera e Eliane ficamos juntos na Terra até setembro de 2006, quando um câncer levou a Vera para junto do papai. Em maio de 2012, foi a vez da Eliane, uma morte que eu só posso classificar como erro médico - e infelizmente não tenho como provar. Ficamos só os dois homens, sem pai, sem irmãs, com duas mães.
O curioso e o irônico desta trajetória é que, em maio de 2012, a mãe do Carlão deu sintomas fortíssimos de Alzheimer. Não houve outro jeito e meu irmão teve de interná-la em uma casa de apoio a idosos, na Ilha do Governador. Recebeu uma tremenda força do Renato e da Raquel, dois corajosos sobrinhos que haviam encarado a morte da mãe e o processo de demência da avó.
O que ninguém sabia era que mamãe iria dar, na mesma época, os primeiros sintomas de Alzheimer. Começou a não sair para comprar a própria comida, a não pagar contas, a expulsar as pessoas de casa. Era a antessala do problema. Mantivemos, eu e minhas sobrinhas Fernanda e Isabel, o controle que foi possível sobre os atos da mamãe. Depois, com as cuidadoras, o amparo necessário. Até que, este ano, eu e Fernanda optamos pela internação.
E eis a ironia da vida: a primeira casa que pensamos foi a que estava a mãe dos meus irmãos. Sim, lá sabíamos que dona Neith estava bem. Eu, minha esposa e Fernanda fomos visitar e casa e, de cara, reconheci a mãe do Carlos. Estava sentada na varanda, sorrindo, impecavelmente vestida. Foi a senha para decidir pela casa.
Mas, e se dona Nair reconhecesse?
Obviamente isso nos preocupou por segundos, mas lembramo-nos que ela não reconhece mais nem o próprio filho. Como iria reconhecer dona Neith?
Bem, hoje as duas estão vivendo na mesma casa. Na minha última visita, encontrei as duas sentadas na varanda, lado a lado, conversando o que dá para conversar quando se tem Alzheimer. Não sei se chegaram a saber quem são. Mas foi tocante vê-las ali.
Cheguei a brincar com a Andreia, minha esposa: "papai manda nesta casa...". Ela, que é espírita mais ferrenha que eu, disparou: "Tá todo mundo aqui: ele, suas irmãs... Facilitou a vinda e a vida espiritual deles". Como sou um espírita meio do avesso, espero que sim. Mas não tenho certeza.
Minha certeza é uma só: estas duas trajetórias de duas mulheres casadas com o mesmo homem que se encontram na mesma casa para idosos esconde uma lição. E eu aprendi. Para que me exasperar ou me rivalizar com sombras do passado? Para que ganhar inimigos que não conheço ou que não me fizeram mal? Para que comprar as histórias dos outros? Estou livre de mais um peso e se a vida me colocar numa varanda ao lado de algum rival de juventude, isso não representa mais nada para mim, nem para minhas filhas. Porque eu não vou pregar a divisão, apenas a união. E porque o Alzheimer anula toda e qualquer rivalidade do passado e coloca todos nós no mesmíssimo patamar: o de seres humanos, mesmo com a compreensão parcialmente afetada.

Texto emocionante, Jorge, precisava ler isso hoje. Que Deus os ampare nesta difícil jornada! Abraços,
ResponderExcluirAmém, Gi! Amém...
ResponderExcluirLi os três textos de até agora em seu blog. Leves e fortes, contam sua história com uma sinceridade que os tornam magnéticos.
ResponderExcluirImagino o quanto lhe emociona escrevê-los. Parabéns pela coragem que eu não sei se teria.
Que Deus cuide de sua mãe e de você.
Muito emocionante. Que Deus continue cuidando da sua mãe e da Neith.
ResponderExcluirNilson e Amanda, escrever sobre este tema é exorcizar os nosso demônios e dar asas aos anjos que vivem em nós...
ResponderExcluirObrigado pela leitura.