sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Jogos psicológicos com os familiares

Uma das coisas que mais me irrita no mundo é o coitadismo de alguns ex-funcionários. Não falo nada do cara que foi sacaneado e demitido injustamente. Falo daqueles que fazem um trabalho com falhas e que, quando demitidos, culpam o chefe, o patrão, se dizem injustiçados. Nunca, jamais, em tempo algum assumem seus erros.

Na vida com Alzheimer, isso é ainda pior. Porque não há cuidador que não se apresente como gênios salvadores de seus parentes. Mas o que eles são, de fato, é trabalhadores. Uns bons, outros ruins...

Durante o tempo em que minha mãe ficou neste esquema, houve bons e maus momentos. Faltas, atrasos, dias em que ela foi deixada sozinha sem nenhum dos parentes soubessem - moro a 1.200 quilômetros de distância e minha sobrinha está grávida e morava distante.

No dia em que decidi internar minha mãe, cheguei de surpresa e lá estava uma cuidadora substituta, que passou a desfilar alguns problemas no tratamento da minha mãe, que raramente saía da cama e comia cada vez menos. Ali eu vi que aquela etapa do tratamento estava vencendo.

Pois bem, a internamos e o processo de adaptação tem, como era de se esperar, seus problemas. Uma semana atrás, minha sobrinha relatou que ela estava animada e que beijara até seu ventre de grávida. Nesta semana, ela chegou lá e encontrou um quadro diferente. Mamãe estava fechada, calada, sem querer andar, com uma baita tosse. Na véspera, tinha ido a um neurologista, que confirmou o diagnóstico e a medicação. No dia seguinte, foi a um pneumologista. Diagnóstico: bronquite causada por fumo.

O quadro mudou. Assustou. A quem viu e a quem está à distância.

Para piorar, eis que, na noite de ontem, recebo mensagens da antiga cuidadora. Numa, cobranças por direitos trabalhistas que ela mesma diz não ter direito. Dá para entender? Não. Mas pior foi a outra... Repare o tom:
"Estou horrorizada com o que vi, eu disse que você  estava dando o passaporte para sua mãe, eu e a Eliane, magra, não fala e não esta andando, está com o joelho machucado."
Detalhe: segundo pessoas que a visitaram, nada disso ocorreu, fora, claro, o desânimo dela dos últimos dias. Talvez causado pelo fato de que, como me alertou o pneumologista em conversa telefônica, mamãe não coordena mais o ato de tossir, o que acumula secreção nos pulmões e deixa ela mais cansada e desanimada.

Quanto ao passaporte, eu rasgo logo o verbo: é para a morte mesmo. É isso que ela quer dizer. Em suma, você está matando sua mãe. E aí você se pergunta: que tipo de jogo é este?

O jogo é claro: empurrar mais culpa goela abaixo, para que você se sinta um filho da puta e retome o esquema anterior, onde todo mundo tinha um bom salário e deixava minha mãe na cama "porque ela não queria levantar". Um esquema em que os telefonemas de pedidos de remédios eram sempre feitos quando eles acabavam, nunca antes, o que nos causava imenso transtorno. Em que a comida era pedida em cima do laço e com a tática era fomentar críticas aos parentes que não estavam presentes. Um esquema que sempre desconfiei e que fica nítido, agora...

Sinceramente, vou simplesmente ignorar as provocações. As queixas legais enviarei a meu advogado, para que ele trate do assunto. Já o terrorismo, vou ignorar. Não sem antes armazenar os diálogos. A vida me ensinou a guardar tudo, todas as provas. Um dia, podem ser úteis.

E quanto a mim? Bom, a culpa sempre foi fodida. Uma a mais não fará diferença. O que me chateia é o joguinho. Mas, fazer o quê? Isso é a humanidade em que vivemos. Eu posso deixar a mãe dele de cama o dia inteiro. Ele não pode decidir o que é melhor para ela. É essa a lógica enviesada daqueles que perdem o salário por não fazer o seu trabalho da melhor forma possível.

Entenderam a munha irritação?

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