quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

As duas mortes da minha mãe

Como muitos sabem, sou um apaixonado por futebol. Era meu sonho infantil ser jogador, mas a condição técnica nunca ajudou. Hoje, talvez, eu seria um volante marcador, raçudo, ganharia uns R$ 100 mil por mês e até iria para a Europa. Mas, nos anos 80 e 90, com os times com apenas um volante, quase sempre habilidoso, nem dava para arriscar. Por que falar de volante neste blog? É que, uma vez, ouvi o Falcão, volante/meia titular da seleção na Copa de 82, dizer que jogador de futebol morre duas vezes. Uma, quando para de jogar. A outra, quando sai do planeta de vez. O problema é que eles sentem a primeira morte até a segunda - falta o abraço do torcedor, o reconhecimento público das massas, a lembrança, o aplauso.

Curiosamente, minha mãe também vai morrer duas vezes, tal como o Falcão, mas ambas só para mim e para quem está vivendo este momento da gente. A segunda morte será a natural. A primeira ocorreu no dia 10 de janeiro. Neste dia, eu, minha mulher e minha filha fizemos a desmontagem parcial do apartamento em que ela morava, no Centro do Rio. Um capítulo da vida duplamente doloroso - pela condição da doença e pela semelhança com o que se faz sempre que alguém morre.

Na divisão das tarefas, enquanto elas embalavam algumas coisas que trouxemos para Brasília, eu tive de abrir gaveta por gaveta, armários, cômodas e estantes para desentocar memórias, papeis e muita tralha - e eis aí outra pista dada pelo Alzheimer: a quantidade de coisas inúteis que são acumuladas e de coisas úteis que são relegadas a segundo plano. Todas devidamente empoeiradas.

Dias antes da grande limpeza eu achei o CPF dela, que estava sumido e que motivou até uma queixa à polícia. Mamãe jurava que havia sido roubada ou perdido na rua, mas o guardou em uma caixinha, com os botões da roupa que usou em meu casamento. O desespero dela foi tanto que atormentou uma das netas, filha da minha falecida irmã, para que a acompanhasse à DP registrar uma ocorrência antes que se aproveitassem do nome dela.

Só que, àquela altura, de nada adiantaria ao suposto criminoso apoderar-se do CPF dela, pois mamãe estava com nome negativado nos sistemas de crédito por ter, simplesmente, transferido a pensão do HSBC para o Banco do Brasil sem fechar a conta corrente e sem quitar o pequeno débito do cheque especial, o que gerou uma dívida que eu acabei pagando, não sem inúmeras discussões com ela para explicar que ninguém a estava roubando - discussões essas em que eu sempre acabava me calando, pois mamãe não conseguia compreender que deixou um buraco na conta, com juros comendo o resto do limite de crédito. 

A tarde da limpeza geral foi ainda mais dura. Primeiro, porque se pareceu com todas as faxinas gerais que fizemos em nossa vida de mãe e filho. Sempre que isso ocorria, significava que iríamos mudar de casa - uma irritante rotina entre 1980 e 1988, quando me casei pela primeira vez e saí daquela vida de caracol, sempre com a casa nas costas. Neste período, me lembro, sem o menor esforço, de ter trocado a Praia da Guanabara pela Rua Cambaúba; a Cambaúba pela Rua Capitão Barbosa (todas na Ilha do Governador); a Capitão Barbosa pela Avenida Princesa Isabel (no Leme); a Princesa Isabel pela Rua Paulino Fernandes (em Botafogo); a Paulino Fernandes pela Rua Ribeiro Guimarães (Maracanã); a Ribeiro Guimarães pela Rua Comendador Bastos (de volta à Ilha); e a Comendador Bastos pela Praia de Botafogo, de onde saí para a minha vida, na Glória. Sete mudanças. Com a minha definitiva, oito. Demais da conta para um cara dos 15 aos 23 anos.

Além da semelhança com as mudanças do passado, havia um quê do fim de uma vida. Quando meu pai morreu, tivemos de desfazer o armário dele. É uma dor profunda. Você abre gaveta, tira papel, lê tudo, separa os que têm utilização, rasga os que não servem. Um ritual do passado se repetindo no presente. Com uma diferença: naquela época, papai havia morrido; mamãe está viva, embora imersa em seu mundo do Alzheimer.

A poeira me forçou a usar uma máscara de pintor, luvas e um arsenal de remédios para impedir crises alérgicas. Gaveta atrás de gaveta, fui depurando um mundo de memórias. Achei coisas ainda mais dolorosas: a partilha dos bens do meu pai, fotos da nossa família, desenhos escolares e alguns mimos que eu e minha irmã fizemos a ela. Um deles é este cartãozinho, da revista Recreio, que me lembro de ter recortado, colado e entregue a ela. Deste lado, o Gugu. Do outro, o Garibaldo, que dizia que "Mamãe está descansando". Ainda estava inexplicavelmente inteiro. 

É nestas horas que as lágrimas chegam nos olhos e atrapalham a visão e a alma. É uma pequena prova de carinho que resistiu a 40 anos de gavetas, pastas e poeira. Ali está meu amor de menino por ela. Guardá-lo mostra o amor dela por mim. 

Passo a passo, neste ritual do "desfazimento", você vai revisitando também a sua própria história. Fotos dela bem vestida, pôsteres, documentos pessoais (achei todos: identidade, o CPF ancestral, carteira de trabalho), anotações, contos, cartas da minha tia por ela, um arsenal de notícias do nosso passado. Tudo isso misturado com inúteis contas pagas de 2002, 2003, 2008, inutilidades armazenadas em pacotes gigantes. Tudo acumulado, misturado, mixado, como se a vida fosse a lembrança do que fomos com o que pagamos.

Li todos os papeis. Joguei dois sacos de 100 litros de lixo fora. Deixei para minhas sobrinhas tudo o que se relacionava à mãe delas - cartas, fotos, bilhetes. Esvaziei todas as gavetas e o espólio de memórias que me incluíam resumiram-se a duas pastas, entre documentos, retratos e algumas cartas que escrevi. Trouxe uma mesa, alguns livros, CDs, louças e copos e destinei ao lixo os móveis velhos e quebrados. Deixei os eletrodomésticos em bom estado para que a Fernanda escolhesse os que queria (bem como o microondas dela, que estava emprestado à mamãe), doei camas e colchões e fechei a porta. 

Mais uma vez, fechei a porta e fui embora. Agora, do meu apartamento (antes dela, eu, minha mulher e minha filha mais velha moramos ali) e das memórias alegres e angustiantes da minha família original, que foi desaparecendo com o tempo.

À noite, em casa, depois do banho, ao lado da família que formei, abri uma garrafa de vinho e, antes do primeiro gole, me pus a chorar. Chorar pela primeira morte da minha mãe: a morte das memórias, agora guardadas em pastas e na minha cabeça.    

Fim? Não. Haverá outra morte. Igualmente dolorida. Sem papeis para jogar fora, sem fotos para achar. Sem um tracinho de alegria. Só a morte fria. A morte final.

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