Acordei com uma certa sensação de leveza. Uma estranha paz. Tudo parecia ser bem e ir bem. Afinal, mamãe estava na clínica e as notícias que chegavam davam conta que ela melhorara da tosse. Estava, ainda, um tanto alheia, mas seguia com suas limitadas interações. Comia sozinha, tentava driblar o almoço (sempre foi ruim de comer...) e dava escândalos na hora do banho, ainda mais se fosse dado por um homem. Era pudica. Sempre foi.
Apesar da tosse e da aparente tristeza que mostrava, eu acreditava que iria se recuperar.
De certa forma, estava certo. De certa forma, completamente errado. Depende do ângulo de visão.
Pois bem, eram umas 10h, não mais, quando toca o telefone. Minha mulher. Normal. Andreia me liga muito, nos falamos, sei lá, umas dez vezes por dia.
Não eram boas notícias.
"Amor, infelizmente sua mãe faleceu esta madrugada. Morreu dormindo".
O chão abriu numa vala sem fim. Comecei a cair no meio do nada, sensação que já experimentara meses antes e que é agoniante por não ter fim. Você não sabe como começa ou termina. Só se corrói de culpa, dor, solidão. Passa tudo na cabeça. Culpa, por que você acha que ela morreu por estar numa casa de idosos na qual você a colocou. Dor pela partida. Solidão pela orfandade. Triste, mas um cara de 49 anos também fica órfão. E sente. Não me venha dizer que não: sente sim.
Os braços amigos ajudam você a se reequilibrar. Não há outra saída. É preciso se levantar. O Alzheimer venceu a guerra. Ela morreu, afinal, por que não soube mais puxar a secreção do pulmão e cuspir. A popular escarrada. Não sabia mais fazer. Era mais um pedaço da vida que tinha desaprendido e que foi fatal.
Mas a culpa é sua, na sua cabeça.
Demorei sete meses para digerir isso. Não, não foi culpa minha, embora não faltassem dedos em riste investindo contra mim até no velório - não por isso, mas por discussões familiares que não vêm ao caso. A mim, naquele momento, cabia apenas e tão somente fazer o que a sociedade demandava: chorar o mínimo possível, pegar a situação pela unha e tomar as providências possíveis. Não sem o braço forte da Andreia do lado, que começou a tratar da gestão da morte, uma das coisas que os vivos sempre esquecem que existe.
Sim, pois viver é mole perto de morrer. Quando nasce o filho, você pega o documento na maternidade, vai no cartório e, pimba!, em segundos está oficialmente existindo mais um brasileiro. Para deixar de existir é dureza. Morrer precisa de laudo e atestado médico. Precisa registrar em cartório, Precisa levar para o cemitério, programar horário de enterro, escolher caixão, flor, comandar velório, maquiagem do morto... E, muitas vezes, precisa fazer exumação. Já fiz duas. Só eu faço na família. O mais novo tem esta tarefa: enterrar todo mundo e depois abrir o baú dos ossos e olhar lá dentro. O que é muito, mas muito foda.
Desculpem o palavrão. Mas é foda mesmo. O primeiro foi meu pai, com mais de 30 anos de morto e as meias intactas, Nunca esqueci as meias, repletas de falanges, falanginhas, falangetas, tarsos e metatarsos. Na próxima vida quero ser meia, indestrutível. A primeira exumação é dura. As outras você tira de letra. Desta vez não era preciso exumar. Menos mal. Mas dói saber que ali estão seus pais e suas irmãs. Ou seja, da família original, resta você e seu irmão. O povo que te criou já foi. Você ficou para enterrar, exumar e chorar. Foda, outra vez.
Mas estávamos lá, ainda na noite de 10 de fevereiro. Na casa da cunhada, amparado, mas decidindo caixão, negociando se a alça era dourada ou não, se tinha Cristo grande ou pequeno na tampa, com o papa-defunto, e mandando fazer maquiagem. Acertando pagamento, cartório e tudo mais. Vida prática. Nas horas vagas, choro e lembranças. Todas de antes da doença. Isso o Alzheimer faz: você também esquece o período em que seu familiar foi abatido por este mal. Mas nem todo o tempo. Sempre vinha à mente o último encontro. O olhar vazio dela, tentando entender quem era aquele homem que a beijava no rosto e dizia que ela era linda. Que ela agradecia apenas com um "obrigado, senhor".
Velório, sepultamento e as demais histórias são sempre iguais. Copie e cole qualquer uma. Pessoas choram, outras ficam de prontidão, às vezes dá briga, às vezes, não. O velório da mamãe foi igual, naquele Jardim da Saudade de Sulacap. O bom foi ver e rever pessoas que participaram de minha vida, como o Renato, a Raquel, a Nanda, a tia Marina, as primas Sandra e Cláudia e o primo Paulo, que me deu uma fita com falas da mamãe. Fita que não tive coragem de ver até hoje. Pudera: só hoje, sete meses depois, voltei a escrever aqui.
Bom, estou fazendo meu acompanhamento para ver a chance de Alzheimer. Aparentemente, nada ainda comigo. Mas fico de olho. Por poucos anos, vi como era. Meu amigo Toninho assistiu por uma década. E foi lá, assim como o Raul.
Bom, num fim de tarde do dia 11 de fevereiro, o corpo de mamãe foi para o mesmo espaço onde estão meu pai e minhas irmãs. Fechou-se um ciclo. Acabou a doença.
Mas não este blog. Ainda volto aqui. O luto acabou hoje, Tem muita história para contar ainda. Existe o banco, uma das coisas mais cruéis do mundo.

Como te disse, só quem perde um ente próximo com essa doença é que entende o quanto ela é cruel. Você existe, seu cérebro tem tudo registrado e, aos poucos, começa a apagar a memória recente. Depois vem a mais antiga e, em seguida, apaga as funções vitais que estão registradas ali no cérebro. Meu avô morreu assim. Foi muito dolorido. Mais de 10 anos de sofrimento, pois a gente acompanhava ele se distanciando sempre. E teve um dia que ele não voltou mais. Ficou apenas um ser semi-vivo, aguardando o que o cérebro ainda conseguia se lembrar, até que toda a memória foi apagada e ele se foi. Embora a dor da perda e os questionamentos que a doença nos permite fazer, apego-me sempre no quão sortuda eu fui de poder conviver com uma pessoa tão, mas tão magnífica como ele. Sei que sua mãe também foi. Então, procure se apegar a isso, no quão privilegiado você foi de conviver com ela. Quanto à dor de enterrar os entes queridos, só posso dizer que acredito que haja um propósito de Deus para isso. Bem, não deixe de escrever. Não deixe de desabafar. Volte a registrar suas lembranças aqui no seu blog. Ajuda a manter viva a memória da família e também contribui um bocado para que você consiga conviver com a dor da saudade. E digo conviver, porque essa não passa. A gente apenas aprende a lidar. Fique bem.
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